Existem lugares que a gente visita. E existem lugares que, de alguma maneira, visitam a gente.
Talvez você já tenha experimentado isso.
Chegar a um determinado lugar e perceber que a respiração muda. Que o silêncio parece diferente. Que o corpo desacelera sem que ninguém precise pedir. Que os pensamentos, tão acelerados no cotidiano, começam pouco a pouco a encontrar espaço.
Eu gosto desses lugares.
Como Biomédica Naturopata, Educadora em Autoconhecimento e Reequilíbrio Integral, aprendi a olhar para o ser humano de uma maneira que considera não apenas o corpo, mas também os hábitos, as emoções, os pensamentos, o ambiente e a forma como nos relacionamos com a própria vida.
Talvez por isso eu não consiga viajar apenas com os olhos de uma turista.
Quando chego a um lugar novo, observo a paisagem, claro. Mas também observo como eu me sinto naquela paisagem.
Há lugares que despertam alegria, outros despertam curiosidade. Alguns nos convidam à aventura, e existem aqueles que parecem nos chamar para dentro. São esses que me interessam particularmente.
Não necessariamente porque acredito que exista uma “energia” mensurável e objetivamente superior em determinada cidade ou montanha, mas porque reconheço que os ambientes podem influenciar profundamente a nossa experiência.
Uma floresta silenciosa é diferente de uma avenida movimentada; uma cachoeira é diferente de um escritório; uma montanha é diferente de um shopping; um templo é diferente de uma estação de trem.
O nosso sistema inteiro percebe essas diferenças. E talvez seja justamente por isso que algumas viagens nos fazem tão bem.
Foi pensando nisso que comecei a reunir alguns destinos brasileiros que despertam em mim essa ideia de paz, presença, contemplação, espiritualidade, natureza e renovação.
Não é um ranking; não existe aqui o “primeiro” ou o “último” lugar. São apenas 10 destinos que eu colocaria em uma lista especial para quem, como eu, gosta de viajar em busca de algo que vai além de fotografias bonitas.
Uma viagem que, quem sabe, possa também ser uma pequena viagem para dentro.
1. Paranapiacaba: a magia silenciosa da neblina
Começo por Paranapiacaba porque foi um dos lugares que despertaram em mim essa percepção de que não precisamos viajar milhares de quilômetros para encontrar uma atmosfera diferente. Às vezes, ela está logo ali, a poucos quilômetros da capital paulista.
Paranapiacaba tem uma característica que, para mim, é quase uma personagem da própria cidade: a neblina. Ela chega, envolve as casas, esconde parcialmente a paisagem e transforma a vila em alguma coisa que parece pertencer a outro tempo.
Talvez seja por isso que tantas histórias e lendas tenham encontrado espaço no imaginário de Paranapiacaba.
A antiga vila ferroviária, com sua arquitetura singular e sua relação com a Serra do Mar, já seria interessante apenas pela história, mas existe algo além.
Existe o clima, a mata, o silêncio entre uma construção antiga e outra. Existe a sensação de que, quando a neblina desce, a cidade muda de personalidade.
A Prefeitura de Santo André mantém inclusive um circuito dedicado às lendas e mitos de Paranapiacaba, reunindo histórias que fazem parte da memória e do imaginário local. E para quem gosta do universo místico, a vila também recebe a tradicional Convenção de Bruxas e Magos.
Mas, particularmente, eu não iria a Paranapiacaba apenas para procurar o extraordinário. Eu iria para caminhar, para observar, para respirar.
Para tomar um café olhando a neblina, para ouvir a mata. Porque existe uma forma de espiritualidade que não precisa de grandes rituais. Às vezes, ela começa simplesmente quando conseguimos ficar em silêncio.
Se eu tivesse que definir Paranapiacaba em uma palavra:
MISTÉRIO.
2. São Thomé das Letras: quando a paisagem nos convida para dentro
Há cidades que têm personalidade, São Thomé das Letras tem presença.
Localizada no sul de Minas Gerais, cercada por pedras, montanhas, grutas, cachoeiras e histórias, tornou-se um dos destinos mais conhecidos do Brasil quando o assunto é misticismo, espiritualidade e autoconhecimento.
Mas talvez o que mais me atraia em São Thomé seja justamente a possibilidade de não fazer nada extraordinário.
Sentar diante de uma paisagem, assistir ao pôr do sol, caminhar por uma trilha, entrar em uma gruta, sentir o vento, conversar, ficar quieta.
Parece simples, e é. Mas quantas vezes, na nossa rotina, permitimos que o simples seja suficiente? Vivemos cercados de estímulos. Informações, notificações, compromissos, prazos, ruídos.
Talvez algumas viagens sejam importantes justamente porque nos devolvem aquilo que a rotina vai retirando aos poucos: Presença.
São Thomé também possui uma forte tradição relacionada ao esoterismo e ao imaginário místico. Lugares como a Pirâmide, a Pedra da Bruxa, a Gruta de São Thomé e as cachoeiras fazem parte do roteiro de quem busca essa experiência.
Eu gosto de manter, nesses lugares, uma postura de curiosidade. Nem tudo precisa ser explicado, precisa ser sentido…
Nem tudo precisa ser transformado em verdade, podemos simplesmente contemplar. E deixar que cada pessoa encontre o significado que aquela experiência tem para si.
Minha palavra para São Thomé das Letras:
INTERIORIZAÇÃO.
3. Ametista do Sul: uma viagem que eu ainda quero fazer
E aqui preciso fazer uma confissão: Ametista do Sul ainda está na minha lista de desejos.
Foi justamente ao pesquisar lugares brasileiros ligados aos cristais que me deparei com essa cidade no Rio Grande do Sul. E quanto mais descobri, mais curiosa fiquei.
Primeiro, pelo próprio nome, Ametista do Sul. Depois, pela história. E, finalmente, por algo que parece quase surreal: Uma igreja decorada com mais de 40 toneladas de ametistas.
A Igreja Matriz São Gabriel é um dos grandes símbolos da cidade e utiliza enormes quantidades da pedra em sua decoração. Eu confesso que gostaria de estar ali pessoalmente.
Não apenas para fotografar, quero observar, entrar, sentir. Quero perceber como é estar em um espaço dessa natureza.
Ametista do Sul possui ainda minas, museus, galerias de pedras e uma Pirâmide Esotérica voltada à meditação. É uma combinação que considero fascinante: geologia, história, natureza, mineração, beleza e simbolismo.
Minha palavra para Ametista do Sul:
CONTEMPLAÇÃO.
4. Alto Paraíso de Goiás: onde a natureza ocupa todo o espaço
A Chapada dos Veadeiros é um daqueles lugares que eu imagino como um verdadeiro convite à reconexão. Não porque seja necessário acreditar em qualquer fenômeno extraordinário.
Basta olhar… Montanhas, cachoeiras, céu, pedras, vegetação, horizontes, espaço.
Alto Paraíso de Goiás tornou-se conhecido também por seu movimento espiritual e esotérico, atraindo pessoas interessadas em meditação, terapias integrativas, espiritualidade e autoconhecimento.
Mas acredito que exista algo ainda mais poderoso ali: a natureza nos lembra que não somos o centro de tudo. E isso pode ser profundamente transformador.
Quando passamos horas caminhando por uma paisagem imensa, algo muda na nossa percepção. Os problemas continuam existindo, as responsabilidades continuam esperando, mas, por alguns instantes, eles deixam de ocupar todo o campo de visão.
E talvez seja disso que precisamos às vezes, não fugir da vida, apenas sair um pouco do excesso.
Minha palavra para Alto Paraíso:
CONEXÃO.
5. Caldas Novas: talvez algumas viagens simplesmente precisem ser lentas
Existe uma “roteirização” da viagem que às vezes me incomoda, parece que viajar precisa significar conhecer o máximo possível.
Acordar cedo, visitar cinco lugares, fazer trilha, tirar fotografias, experimentar tudo. Voltar exausta.
Mas e se algumas viagens existissem justamente para fazer o contrário?
Para desacelerar?
Caldas Novas me lembra isso.
Conhecida pelas águas termais, a cidade pode ser uma opção interessante para quem procura descanso e bem-estar. E talvez esse seja um tipo de viagem que todos nós deveríamos nos permitir de vez em quando.
Uma viagem sem grandes expectativas, uma viagem em que dormir bem seja parte do roteiro. Em que uma água quente seja suficiente, em que não exista culpa por não estar fazendo nada.
Como profissional que trabalha com uma visão integral do equilíbrio, considero o descanso uma parte importante da nossa relação com o próprio corpo e com a vida.
Não precisamos transformar tudo em produtividade, descansar também é fazer algo por nós.
Minha palavra para Caldas Novas:
RESTAURAÇÃO.
6. Cunha e o Lavandário: quando o perfume da natureza encontra a paz
Alguns lugares não precisam de grandes histórias místicas para nos proporcionar uma sensação especial. Às vezes, basta uma paisagem, um aroma, um pouco de silêncio. E, quem sabe, um campo inteiro de lavandas balançando ao vento. É por isso que Cunha, no interior de São Paulo, merece entrar nesta lista.
Conhecida pelas montanhas, pelo clima, pelas paisagens rurais, pela cerâmica e pela gastronomia, Cunha tem aquele tipo de atmosfera que convida a desacelerar.
E existe um lugar que, para mim, traduz perfeitamente essa experiência:
O Lavandário.
Imagine chegar a um campo aberto, cercado pelas montanhas da Serra do Mar, e encontrar fileiras de lavandas perfumando a paisagem. É uma experiência que envolve muito mais do que aquilo que os olhos conseguem perceber.
Existe o aroma, a textura, as cores, o vento, o som, a amplitude da paisagem. É uma experiência sensorial completa.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas que mais me interessam quando falamos de bem-estar. O nosso corpo percebe o ambiente antes mesmo de conseguirmos racionalizá-lo.
Um aroma pode despertar uma memória. Uma paisagem pode nos trazer tranquilidade. Uma música pode mudar nosso estado de espírito. Uma caminhada pode organizar pensamentos que pareciam confusos. Não precisamos transformar isso em algo sobrenatural.
Existe uma beleza enorme em simplesmente reconhecer que somos seres sensíveis ao mundo que nos cerca.
Minha palavra para Cunha:
RESPIRAÇÃO.
7. Chapada Diamantina: quando caminhar se transforma em meditação
Tenho uma relação especial com a ideia de caminhar, talvez porque caminhar seja uma das formas mais simples de voltar ao presente… Meditação em sua forma ativa.
Um passo, depois outro; a respiração; o corpo; a paisagem; o caminho.
Na Chapada Diamantina, essa experiência pode ganhar uma dimensão ainda maior. Montanhas, vales, rios, cavernas e cachoeiras formam um cenário que parece pedir tempo.
Não é uma paisagem para ser consumida rapidamente, é uma paisagem para ser vivida.
E talvez por isso eu associe a Chapada à palavra presença, também. Porque quando estamos realmente presentes, percebemos coisas que estavam ali o tempo todo.
E é curioso como, muitas vezes, precisamos viajar para longe para perceber aquilo que sempre esteve dentro de nós.
Minha palavra para a Chapada Diamantina:
PRESENÇA.
8. Pedra do Ingá: o direito de não ter todas as respostas
Outro lugar que ainda não tive o prazer de conhecer, a Pedra do Ingá, na Paraíba, desperta curiosidade e diferentes interpretações.
Existe algo muito bonito em estar diante de algo antigo e perceber que não precisamos imediatamente encontrar uma explicação extraordinária. Com suas centenas de gravuras (itacoatiaras) com espirais, animais, formas geométricas e representações que lembram constelações; podemos pesquisar, estudar, ouvir especialistas, conhecer as teorias. Mas podemos simplesmente dizer: “Ainda não sabemos tudo.”
Isso, para mim, também é autoconhecimento. Reconhecer os limites do nosso conhecimento. Não transformar desejo em certeza; não transformar uma hipótese em fato. E ainda assim manter viva a capacidade de se maravilhar.
Minha palavra para a Pedra do Ingá:
CURIOSIDADE.
9. Aparecida: quando a viagem é movida pela fé
Talvez uma das maiores confusões seja imaginar que um destino “energético” precise necessariamente ser esotérico. Eu não penso assim, para mim o energético e o espiritual vão além do religiosos.
Para muitas pessoas, um lugar de oração pode produzir uma experiência de profunda paz. Para outras, uma montanha, ou uma praia, ou até um jardim.
Independentemente da religião de cada um, é impossível ignorar a força simbólica de um lugar que recebe tantas pessoas em busca de esperança, gratidão, conforto e oração. E talvez seja justamente essa intenção humana que torne determinados espaços tão especiais.
Somos seres simbólicos. Criamos significados, rituais, lugares de memória. E isso também faz parte da nossa história.
Minha palavra para Aparecida:
FÉ.
10. Foz do Iguaçu: diante da natureza, o silêncio acontece
Para terminar, escolhi um lugar que talvez não seja considerado místico, mas que, para mim, possui algo profundamente transformador: As Cataratas do Iguaçu.
Existe uma experiência muito particular em estar diante de uma força natural daquela dimensão. O som, a água, a velocidade, a força, a paisagem… Tudo parece dizer: “Você faz parte de algo muito maior.”
E eu gosto dessa sensação.
Não porque ela diminua a nossa importância, mas porque nos coloca em perspectiva.
Passamos tanto tempo preocupados com aquilo que precisamos resolver, produzir, conquistar, responder e controlar. Então chegamos diante de uma catarata, e percebemos que existem coisas que simplesmente acontecem.
A água cai.
O rio segue.
A natureza continua.
E nós observamos.
Talvez isso seja uma das formas mais bonitas de meditação: estar diante de algo tão grandioso que, por alguns instantes, a mente simplesmente fica em silêncio.
Minha palavra para Foz do Iguaçu:
FORÇA.
O que todos esses lugares têm em comum?
Cada lugar possui sua própria história, cultura, paisagem e significado. O que os une nesta lista é outra coisa? A possibilidade de sair da rotina.
E talvez seja aí que esteja uma parte importante do que chamamos de “energia”. Não necessariamente em algo sobrenatural. Mas naquilo que acontece quando mudamos o ambiente, diminuímos os estímulos, entramos em contato com a natureza, conhecemos outras histórias e permitimos que o corpo e a mente experimentem algo diferente.
Há uma frase que gosto muito de repetir:
“Às vezes, precisamos mudar o cenário para conseguir enxergar aquilo que dentro da rotina já não conseguimos ver.”
Talvez viajar seja isso, mudar o cenário. E, algumas vezes, mudar o olhar.
Viajar para fora. Viajar para dentro.
Talvez esse seja o verdadeiro motivo pelo qual gosto tanto de lugares assim. Não estou procurando uma fórmula mágica. Não acredito que uma cidade vá resolver aquilo que precisa ser olhado dentro de nós.
Uma cachoeira não substitui o autocuidado.
Uma ametista não substitui uma escolha consciente.
Uma viagem não substitui um processo de autoconhecimento.
Mas uma viagem pode criar espaço.
Espaço para respirar, para pensar, para sentir. Espaço para olhar para a própria vida de uma maneira diferente. E, às vezes, isso já é muito.
Como profissional que trabalha com Naturopatia, Autoconhecimento e Reequilíbrio Integral, essa é uma das coisas que mais me encantam… Perceber que o cuidado com nós mesmos pode acontecer de muitas maneiras.
Pode estar na alimentação.
No sono.
No movimento.
Na respiração.
No silêncio.
Na natureza.
Nas relações.
No conhecimento.
E também naquela viagem que fazemos simplesmente porque alguma coisa dentro de nós pede: “Eu preciso ir.”
Talvez seja por isso que alguns lugares nos façam tão bem, não porque tenham necessariamente uma energia mágica, Mas porque, quando chegamos até eles, finalmente permitimos que a nossa própria energia encontre espaço para respirar.
E você? Qual lugar renova as suas energias?
Agora quero saber de você. Existe algum lugar no Brasil onde você sente paz?
Uma cidade, uma montanha, uma praia, uma cachoeira, uma igreja, um templo, uma trilha, uma pequena vila que quase ninguém conhece, um lugar onde você sente que consegue respirar um pouco melhor.
Conte nos comentários.
Porque talvez o seu lugar especial mereça estar na próxima lista.
E quem sabe, na próxima viagem, nossos caminhos não se cruzam por algum desses lugares onde a gente vai para conhecer o mundo — e acaba encontrando um pouco mais de nós mesmos.
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“Nem sempre precisamos viajar para encontrar um lugar diferente. Às vezes, precisamos apenas encontrar um lugar que nos permita sermos diferentes por alguns instantes.”


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